Lina Bo Bardi: descubra por que você deveria conhecê-la

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Nota 5,00 de 5, a partir de 3 votos).
Loading...

A arquitetura brasileira se destaca no cenário mundial com artistas originais — como João Filgueiras Lima, Paulo Mendes da Rocha, Roberto Burle Marx, Oscar Niemeyer e Tomie Ohtake — e com peças e construções únicas, que aproximam a arte das situações comuns e da humanidade.

Lina Bo Bardi é considerada uma das maiores arquitetas brasileiras, apesar das poucas obras construídas e da dificuldade em se estabelecer na época. Com portfólio que transpassa a arquitetura e envolve outras artes, seus desenhos inspiram simplicidade, modernidade e liberdade, e contam parte da história do país e de cidades como São Paulo e Salvador.

Neste texto, vamos apresentar a importância que Lina Bo Bardi e suas obras têm no contexto arquitetônico atual e como se inspirar com seus traços e conceitos. Quer saber mais? Confira a seguir!

Afinal, quem foi Lina Bo Bardi?

Lina era italiana e apaixonada pelo Brasil. Foi muito mais que arquiteta, tinha preocupações com o cenário político e com a influência da arquitetura no convívio e cotidiano das pessoas. Suas obras retratam a crença da arquiteta de que os projetos não eram só construções, mas eram também poesia e serviço coletivo, de certa forma.

Deixou no Brasil pouco mais de 10 obras construídas, reconhecidas mundialmente, sendo ícones da arquitetura moderna. Os conceitos para todas as suas obras são muito sólidos, apesar de tão distintos e com resultados surpreendentes.

Contribuiu para áreas além da arquitetura, atuando em múltiplos ramos, como design, cenografia e ilustrações.

A vida pessoal e principais hábitos da arquiteta

Achilina di Enrico Bo, conhecida como Lina Bo Bardi, nasceu na Itália no dia 5 de dezembro de 1914. Em tempos de guerra e crises, passou por momentos complicados na infância, sendo considerada uma criança solitária e difícil.

Vinda de uma família genovesa de poucos recursos financeiros, a arquiteta sempre teve grande atuação no cenário político, seja no Brasil ou na Itália. Conviveu intensamente com a guerra, com o surgimento e a ascensão do fascismo italiano. Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a ter seu escritório bombardeado, mas continuou fazendo parte da luta política.

Lina teve participação no partido comunista italiano, inclusive com atuação na resistência contra a invasão alemã, também em 1943. A arquiteta chegou a chefiar e a atuar em revistas, com a “L’Illustrazione Italiana” e “A – Cultura della Vita”.

Casou-se com Pietro Maria Bardi em 1946. Pietro era jornalista e crítico de arte, fundou uma galeria chamada Galleria Bardi e teve contato com vários artistas e expositores pelo mundo, incluindo Buenos Aires e Brasil.

O casal se conheceu no “Studio d’Arte Palma”, criado por Pietro em 1944, local de venda de arte e palco de importantes pesquisas e estudos. Casaram-se em 1946 e, no mesmo ano, vieram para o Brasil na esperança de buscar uma nova realidade, fugindo do cenário de pós-guerra da Itália. Lina naturalizou-se brasileira em 1951.

A artista morreu em casa no ano de 1992, aos 77 anos.

Os primeiros passos dados na carreira

Lina fez o curso de Arquitetura na Universidade de Roma, seu projeto de conclusão consistia em uma maternidade irreverente com estrutura de concreto armado e vidro aparente, visando a humanização da instituição e o acolhimento de mães solteiras e dos bebês.

Muda-se para Milão e começa a trabalhar com o também arquiteto Gio Ponti. Após alcançar certo sucesso, Lina inicia sua carreira solo, abrindo seu próprio escritório em Milão. Em meados da II Guerra, os serviços eram escassos e, posteriormente, todos os projetos e expectativas foram interrompidos com o bombardeio que atingiu o edifício.

A arquiteta começa a atuar em revistas e muda-se para Roma com o marido. A grande mudança começa com uma visita que o casal fez ao Rio de Janeiro — a cidade apresentou uma nova perspectiva de vida, com oportunidades e abertura para a arte e arquitetura.

No final de 1946, Lina e Pietro embarcam para o Brasil, trazendo um grande acervo de obras de arte, livros e peças de artesanato. As exposições de arte feitas por Pietro possibilitaram uma aproximação entre o casal e o empresário Assis Chateaubriand, o que abriu as portas para um novo desafio e empreendimento, além de uma das maiores realizações de Lina: o museu MASP — Museu de Arte de São Paulo.

A contribuição da artista para a arquitetura

As poucas obras construídas têm um significado enorme para a arquitetura mundial e brasileira, e reverberam a constância da artista. Lina não sofreu momentos de queda nem mesmo de ascensão, se mostrando uma artista com conceitos e obras uniformes.

Sua contribuição não pode ser medida pela quantidade de obras, que foram poucas, mas sim pelo que a arquiteta buscava com cada detalhe do desenho e o legado que deixou para a sociedade. Obras como MASP, Teatro Oficina e SESC Pompeia desempenham um papel fundamental na manutenção do interesse artístico da população.

Além disso, ela ajudou também a fundamentar o modernismo no Brasil, vertente da arquitetura que atualmente é uma das inspirações mais importantes para os profissionais da área.

A contribuição feita para o meio artístico

Além de figura presente no campo da arquitetura, Lina sempre esteve muito ligada à produção cultural brasileira. Multifacetada, como muitos a descrevem, estava em constante busca de novos traços e novas inspirações. Lina produziu e estudou os mais variados tipos de arte — contribuiu para o cinema, as artes plásticas, o teatro, entre outros.

Pietro e Lina também participaram ativamente da comunidade intelectual que movimentava o meio artístico da época. Os dois conseguiram reunir um grande acervo, que hoje é mantido pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.

6 obras que ganharam destaque ao redor do mundo

A contribuição de Lina no Brasil ganhou fama mundial nas últimas décadas e suas obras são marcos da arquitetura brasileira e internacional. A personalidade da artista e as influências em cada trabalho são bem claras, demonstrando a consistência do legado de Lina.

1. Casa de vidro

A primeira obra da arquiteta no Brasil é também um dos primeiros projetos do modernismo no país que a acolheu. A casa foi projetada para ser sua residência com o marido e é um belo exemplar que retrata o estilo de Lina com maestria.

A construção foi erguida entre 1950 e 1951 e por mais de 40 anos foi a morada de Lina e Pietro. Localizada no bairro Morumbi, zona sul da capital paulista, foi a primeira casa a ser construída no bairro, em uma fase inicial da expansão da cidade de São Paulo.

Por estar em uma parte ainda não muito explorada e coberta de vegetação nativa, Lina quis respeitar o terreno inclinado e a natureza em volta, deixando a casa cercada de árvores e plantas e criando também jardins internos.

A casa de vidro é suspensa por finas colunas na parte da frente e a fachada é composta inteiramente por vidro, o que dá nome à casa. Para melhor análise, a construção pode ser dividida em duas partes: a primeira contém a sala e a biblioteca, cercadas pelas aberturas de vidro, em conjunto com um pátio (na porção central da residência, que conta com a vegetação nativa e grandes árvores); a segunda é a parte dos quartos e área de serviço, que, em contraposição à parte frontal, é opaca e maciça.

Atualmente, é a sede oficial do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi e é aberta a visitação do público, promovendo contato dos visitantes com a vida e obra de Lina e Pietro, bem como interação com as peças, as fotografias, os móveis — alguns desenhados pela arquiteta — e os arquivos originais do casal.

2. MASP

O Museu de Arte de São Paulo foi inaugurado em 2 de outubro de 1947, criado por Assis Chateaubriand, com auxílio técnico e, posteriormente, direção de Pietro Bardi.

O MASP foi o primeiro museu moderno brasileiro, não tem fins lucrativos e seu objetivo é promover a cultura e conhecimento. A sede original era em um outro edifício em São Paulo, e Lina participou do projeto das salas, pensando em um espaço funcional e prático para as exposições.

Com o crescimento do acervo e a variedade de atividades oferecidas, o museu precisava de outro espaço. Lina projetou, então, a atual sede do museu, localizado na avenida Paulista. Uma das condições impostas pelo doador do terreno e pela prefeitura era que fosse mantida a vista para o centro da cidade, pela avenida Nove de Julho.

Lina teve duas opções: a construção subterrânea ou a suspensa. Sua escolha rendeu um dos nossos espaços culturais mais icônicos. O vão do MASP é um espaço livre — 74m de comprimento e a 8m do bloco suspenso — que permite a integração do que é externo e interno ao museu, trazendo a ideia de vazio e, ainda, imponência da construção, contraposição aos prédios da avenida e possibilidade de convívio.

A construção alongou-se por quase 10 anos e é até hoje considerada ímpar e moderna, uma vez que o bloco principal é amparado por quatro pilares laterais, utilizando a técnica de concreto protendido, que é mais resistente e possibilitou o tamanho da estrutura.

Hoje, o MASP conta com um acervo de mais de 8000 exemplares, entre pinturas, fotografias, esculturas e objetos — materiais não só brasileiros, mas de todos os continentes, reunidos em exposições permanentes e temporárias.

A título de curiosidade: Lina projetou todo o espaço do museu, incluindo os suportes das obras, que eram cavaletes de vidro (uma base de concreto e uma chapa de vidro na vertical). Os visitantes observavam primeiros as obras e, depois, a descrição. Os cavaletes foram idealizados para serem apenas suportes das obras, com formato simples e sem destaque, não interferindo na exposição da arte em si.

Os objetos foram retirados em 1996, após alegação da organização do museu de que a movimentação dos automóveis na avenida poderia provocar algum incidente. Os cavaletes reformados e reforçados retornaram em 2015, para voltar, também, às raízes do museu.

3. SESC Pompeia

O projeto arquitetônico do centro cultural foi feito com base na estrutura antiga de uma fábrica de tambores que havia no local. Também localizado na cidade de São Paulo, o conjunto recebe anualmente mais de 1,25 milhão de pessoas. Na estrutura, toda de concreto aparente, há quadras esportivas, teatros, restaurantes, espaços para exposições e outras atividades.

A obra começou em meados de 1997 e foi concluída após 9 anos. O complexo conta com dois prédios interligados e galpões da antiga fábrica. O espaço alia a simplicidade do concreto a traços modernos e dinâmicos, transformados em espaços integrados e abertos.

Em 2016, o jornal britânico The Guardian elegeu a edificação como a 6ª melhor construção em concreto do mundo, ressaltando a habilidade da arquiteta em projetar um espaço de cunho político sem perder a consciência cultural, que permanece como importante centro até os dias de hoje.

4. Solar do Unhão

Lina não se mantém apenas em São Paulo: a reforma do Solar do Unhão em Salvador, que passou a abrigar o MAM-BA (Museu de Arte Moderna da Bahia), também é considerada uma das obras mais incríveis da arquiteta.

A estrutura do século XVI exigiu muito trabalho de Lina, tendo em vista que o objetivo era manter a construção, que é patrimônio histórico, acrescentando um toque de modernidade para abrigar importantes materiais da história baiana e brasileira — além de, bem como outras obras de Lina, transformar o lugar em uma escola e um ambiente de convivência.

Respeitando a história da construção, a arquiteta projeta a “Escada de Lina”, elemento-chave do museu, que liga andares da exposição. O estilo moderno é misturado com a estética e sensação de movimento das rodas de carro de boi, deixando um traço inconfundível da italiana.

5. Teatro Oficina

Localizado em São Paulo, o teatro foi construído em 1966, mas foi reprojetado pela arquiteta após um incêndio. O Teatro Oficina Uzyna Uzona foi um dos últimos trabalhos de Lina, em 1991, e nem por isso se distancia dos conceitos modernistas, comprovando a constância das composições da arquiteta.

A estrutura consiste em um teatro-pista (teatro passagem), com paredes de vidro, corredores estreitos e longos, galerias em andaimes e teto retrátil. Além de ser ícone do teatro no cenário brasileiro, é ícone da arquitetura mundial. Foi escolhido em 2015 pelo jornal britânico The Observer, do The Guardian, como o melhor teatro na categoria “projeto arquitetônico”.

6. Ladeira da Misericórdia

Localizada no Pelourinho, Salvador, a ladeira é hoje considerada pelo WMF — World Monuments Fund —, um patrimônio ameaçado. A rua é uma das ligações entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta de Salvador, foi construída em meados do século XVI e, ao longo da história, sofreu com o abandono e as mudanças na organização da cidade.

Lina e sua equipe propuseram um plano para revitalizar o centro da cidade, sem fazer grandes alterações nos aspectos ideológicos e culturais das antigas ruas e edifícios, mas alterando o aspecto geral da ladeira.

Na Ladeira da Misericórdia, foi desenhado um edifício — que dá lugar a um restaurante — constituído por cilindros de argamassa, que tinha como objetivo revigorar rapidamente um dos espaços degradados e abandonados. O projeto, dos anos 1980, preconizava que todas as habitações, os terrenos e as construções reformadas deveriam ser voltados para a população, sem prejuízo para os moradores e comerciantes. De fato, o aspecto visual da ladeira mudou e ficou mais agradável.

Na década de 90, o projeto já tinha perdido forças e o resultado final foi diferente do que os arquitetos e engenheiros propuseram. Infelizmente, a população, que dependia do lugar, foi expulsa do bairro e obrigada a ir para a periferia da cidade. A região se tornou espaço apenas para turistas, com restaurantes e lojas não acessíveis para a comunidade.

O conjunto arquitetônico da ladeira atualmente está interditado.

A peça que levou a fama até a arquiteta

Pode-se dizer que nenhuma das obras citadas acima — ou qualquer outra —, trouxe fama a Lina em sua época. O período de produção da arquiteta, tanto no Brasil quanto na Europa, foi marcado por discursos machistas e nacionalistas. Seu reconhecimento veio apenas após sua morte em 1992.

Entretanto, a obra que é ligada diretamente à arquiteta é o MASP. Isso acontece principalmente por todo o encantamento que o prédio traz até os dias de hoje, e também pela história do museu e participação importante na história do país, em termos culturais, sociais e políticos, como grande centro de encontros e manifestações populares.

O traço autoral de suas obras

O estilo de Lina é composto por traços simples e claros. Os projetos são, portanto, obras modernas, em que a simplicidade e a exatidão das estruturas representam um espaço de convívio e integração das pessoas.

A preocupação de Lina vai além do interior da construção e envolve o entorno, nunca se rendendo às tendências e regras. Os materiais mais usados pela arquiteta são vidros, concreto, estruturas de aço, madeira, pedras e a própria natureza brasileira, que acompanha as obras de maneira elegante.

São obras que fazem parte da realidade, sempre atentas a aspectos da cultura popular, com elementos que se completam e opõem, mostrando a liberdade de criação e capacidade de desenho da artista.

Lina era atenta aos detalhes e resultados de suas obras, sem deixar de lado a contraposição de elementos nos projetos. O MASP, por exemplo, apresenta uma arquitetura e projeto técnico com práticas modernas e ligadas ao desenvolvimento industrial, mas ao mesmo tempo é rudimentar e singelo em termos de acabamentos.

Sua arquitetura era considerada “pobre”. Isto é, com uma visão oposta à arquitetura tradicional da época, a artista valorizava os detalhes, simplificando os traços e utilizando elementos mais “clean”, atrelados à arte e comportamento popular. Um dos melhores exemplos dessa técnica é o carro de boi, ferramenta simples, quase artesanal, que inspirou a escada do Solar do Unhão e se destaca como uma obra de arte.

O reconhecimento no Brasil e no mundo

Durante sua vida, Lina não foi tão reconhecida por suas obras nem por sua participação na arquitetura brasileira. A arquitetura e o mercado de trabalho da época não eram considerados espaço para mulheres, e parecia não haver lugar para uma estrangeira no cenário arquitetônico e cultural.

A linha de trabalho da arquiteta também impunha desafios, o modernismo não tinha espaço no tradicionalismo e conservadorismo da época. Lina era empreendedora e tinha uma visão do futuro muito presente em seus trabalhos, o que para muitos causava certo estranhamento.

Após sua morte, o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi teve papel fundamental na divulgação e exposição do trabalho do casal. Lina tornou-se, portanto, referência nacional e internacional com obras e ideias em pauta no contexto arquitetônico e artístico, mostrando a importância do trabalho desenvolvido para questões ambientais, sociais, políticas e culturais.

O ano de 2014, quando Lina completaria 100 anos, contou com várias exposições, um livro e um filme para celebrar a vida e as obras da arquiteta.

O instituto Lina Bo Bardi

O Instituto Lina Bo e P.M. Bardi (antes Instituto Quadrante) foi criado em 1990 e é sediado na Casa de Vidro. O propósito do instituto era promover a cultura e a arte do Brasil, tanto para os estrangeiros quanto para os próprios brasileiros. O casal teve importante atuação no cenário cultural e o instituto é uma ferramenta para auxiliar a perpetuação do trabalho.

O instituto disponibiliza o acervo imenso que o casal tinha de informações, documentos e conhecimentos pouco difundidos para o público, em geral. Para os amantes de arte e arquitetura, é um dos pontos de visitação mais recomendados de São Paulo.

Hoje o programa do instituto conta com exposições, vídeos, palestras e conferências que visam disseminar o que Lina e Pietro valorizavam tanto no país: a produção cultural. O instituto ajuda a movimentar pesquisas e estudos sobre arquitetura, artes plásticas, design, urbanismo e arte popular.

Lina Bo Bardi é, portanto, uma das maiores arquitetas brasileiras, com legado ímpar para arquitetura e arte do Brasil, país que de certa forma a acolheu, mesmo não compreendendo seu trabalho.

A arquiteta ítalo-brasileira arriscou-se no que pôde, ultrapassando a arquitetura e construindo espaços inteligentes que permitem a convivência e a troca de experiências. Com obras tão irreverentes e, ao mesmo tempo, tão simples e próximas a aspectos ambientais e sociais, é uma das maiores inspirações.

E aí? Gostou do conteúdo? Compartilhe este post nas suas redes sociais!

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *